rio de janeiro
hoje eu saí de casa para fazer coisas para a minha mãe… depois do banco fui ao largo do machado para comprar a passagem de volta de Ribeirão Preto, aonde eu vou passar o Natal.
Chegando lá, descobri que eles só vendiam a passagem de ida, e a volta eu só poderia comprar na agência União da rodóviária.
liguei para ela, contei-lhe o que eu tinha ouvido do moço do guichê, crente que ela diria algo tipo “ah,então depois eu vou lá, ou peço ao seu avô para comprar em ribeirão mesmo”
mas ela atende o telefone, muito breve e séria pois estava com uma cliente no consultório (ela é psicóloga) e, ao ouvir o que eu tinha a dizer, retruca “ah, então tá bom. vai com cuidado viu. me liguei quando chegar em casa, beijos tchau” e desligou.
eu nem sabia por onde começar… …fui andando e achei um escrito rodoviária por dois reais: é esse mesmo.
entrei, perguntas básicas ao motorista:
-moço, vai pra rodoviária né?
-vai sim
-mas vc me avisa qd chegar?
-aviso sim
-mas pára bem pertinho né?
-pára sim
-ok ok…e por lá não é perigoso não né?
-não, não…
-[sorriso gigante pra compensar o interrogatório] ah, então tá, brigada. to aqui ein, não esquece de me avisar.
–
o ônibus pegou a rua alice subiu. subiu, subiu… achei que já estivéssemos no mundo novo, mas não… subimos ainda um pouco mais. tudo deserto, parecia o finalzinho do horto…aquelas ruas íngremes, portões grandes, curvas perigosas…
entramos num túnel chamado “tunel da rua alice” (embora eu tivesse certeza que a rua alice nem vestígio tinha mais por ali) e saímos numa favela do rio comprido.
no começo nao entendi nada, queria desesperadamente saber aonde eu tava -não saber onde eu estou é incrivelmente encômodo, mas ao mesmo tempo empolgante…cada placa, cada mercearia…e eu tentando desesperadamente adivinhar- até que veio uma placa me salvar: RIO COMPRIDO
passei pelo universo dos tecidos -esboço uma ida lá há muito com minha mãe- onde eu quase desci pra comprar tecido, se não fosse o fato de eu estar num lugar aonde eu nunca tinha ido e a rua estivesse meio deserta… um clima meio de vida preguiçosa, aquela tarde de sol forte, com pouca gente na rua… das janelas dos sobrados só dava de ver os ventiladores e as manuicures conversando com as mulheres do bairro
saímos subitamente do rio comprido, e caímos numa avenida muito larga de onde se via ao longe prédios comerciais espelhados, com grandes logomarcas ao topo
tinha uns campinhos de futebol no meio, aonde uns muleques magrelos jogavam bola
dali entramos logo num verdadeiro emaranhado de viadutos, ali na saída do centro na leopoldina e após algum tempo cheguei na rodoviária.
não sabia ao certo quanto tempó passara no ônibus, mas calculo uma hora
nossa, posso seguramente me comparar com a alegria de uma criança que acaba de adquirir a mais imponente das conchas da praia. eu tenho esses prazeres meio singulares, meio amelie poulain, talvez… a questão é que não tem coisa que eu goste mais do que andar de ônibus e conhecer lugares novos, não por guias e carros mas sim pela simples observação das ruas e casas e pela análise das pessoas que por ali descem e sobem no ônibus.
é inexplicável: gosto muito de conhecer a cidade. de saber aonde fica tal rua, que ônibus pegar, de poder me situar aonde eu vá no Rio. mas não que seja ruim estar num lugar novo… é ainda melhor, meus olhos ficam brilhando inquietos
tanta informação pra assimilar, e tudo tão de uma vez que eu entro em uma espécie de transe e me sinto como que não estivesse ali. eu estátua, sem dar um pio, quase sem respirar, só ouvindo a conversa do trocador com a moça da janela, da manicure com o carteiro, do filho que chora e o pai que consola no banco de trás. é uma orquestra de sons e cores inesperadas, de ares novos, desconhecidos.
coisa de maluco mesmo…
—–
comprei a passagem, tomei um caldo de cana, atravessei a passarela gigante e fui pro terminal de ônibus que saem da rodóviária.
resolvi pegar dessa vez um ônibus conhecido, né, pq o outro bem ou mal deu muitas voltas e eu queria muito ir pra casa pois já era hora de engarrafamento
fugi do 126 da pinheiro machado, e acabei num 128.
rodoviária – rio branco – aterro – rio sul
aparentemente sem muitos mistérios.
mas que engano…a volta foi tão rica quanto a ida. talvez um pouco mais melancólica, mas parcialmente que porque esse era sem ar condicionado e o banco era torto. detalhes, detalhes…
saímos da rodoviária, demos umas voltas passamos por trás de uns viadutos ali pelo catumbi e entramos numa tal de avenida venezuela.
um bairro com ar de centro, mas não de centro numa quarta à tarde e sim de centro num domingo. aquela coisa meio sombria, que parece abandonada, sabe? os sobrados antigos, as fachadas desgastas, muito sujas do transito, as ruas de paralelepipedo cheias de carros velhos…
achei tudo muito estranho, clima sombrio demais
parecia que aquele lugar tinha sido abandonado há 20 anos atrás e ninguém tivesse percebido.
aquilo me fez refletir muito… leblon é tipo 1/100 do rio de janeiro… a cidade tá abandonada, totalmente…
aquilo foi me dando uma angústia, um nervosismo… essa pretensão toda de nós, nascidos na zona sul, com nossos probleminhas tãão medíocres.
o que me falta é humildade. (não vou falar que falta a todos, cada um reconheça por si a sua carência de humildade)
após horas e horas naquela avenida venezuela sem fim, finalmente um burburinho de gente.
o que era aquilo?
à primeira vista, muito lixo na rua… e eu ainda pensando “nossa aqui não tem nem coleta direito, que merda”
à segunda vista, muitas pessoas…um ponto de ônibus muito tumultuado e atrapalhado, mulheres homens e crianças correndo atrás dos animais bufantes e impacientes
e finalmente, á terceira vista, lia-se ” RESTAURANTE POPULAR”
e aí tudo se encaixou em um quadro só…imagine comigo: um galpão gigantesco, de arredores nem um pouco conservados, poucos homens vestidos de branco com aquelas roupas supostamente higiênicas, aquelas botas brancas de pescador e as luvas de borracha de açogueiro- acho que no fundo aquela roupa toda é pra proteger o cozinheiro, coitado.
junte a imagem daqueles homens levando latas e latas de lixo pra fora do galpão, àquelas calçadas que em vez de cinza são pretas, aquele preto que é quase um chorume de papelão molhado com sujeira- tipo aquilo que fica preso no seú pé depois do carnaval,sabe?- aos milhaares de mendigos morando em meio àquela imundice…junte tudo…aquelas pessoas todas se amontoando nos onibus, aquele galpão, aqueles mendigos, a sujeira, o lixo….
sentiu, né?
e minha consciência gritando “Meu Deus..! Que mundo é esse que eu vivo e não conheço? Quem deixou as pessoas viverem nessas condições no nosso mundo sem a gente saber? Meu deus! me sinto quase culpada de dormir na minha cama toda noite e respirar ar puro! quem deixou o mundo ficar assim?Quando foi que o mundo deixou essas pessoas pra trás?”
Pra que você serve agora, dinheiro? Dá de comer a eles, vai!
Dá comida, dá diversão, dá arte!
Tira o sub que fica antes desse mundo!
ai, que sensação…
a sociedade (a parcela que “importa”, ao menos, é realmente muito alienada e ingorante, alheia àquilo
todo mundo sabe, tem miséria, tem sujeira tem violência. mas miséria assim? tão de perto? no meio da rua… no meio da cidade?
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logo depois que passei o restaurante popular (coisa que não demorou mais de 2 segundos pois meu ônibus nem sequer lá parou, mas que serviu já pra escrever muuuita coisa. muita coisa mesmo… estou há um dia e meio editando esse texto, justo na parte do restaurante popular. não quero ser preconceituosa nem tendenciosa, não é essa minha intenção. aqui eu estou narrando a minha experiência, just as it is. estou apenas contando o que passou pela minha cabeça naquela hora e o que passa na minha cabeça agora…)
veio o hotel popular. mas foi tudo tão rápido que nem deu pra prestar muita atenção lá, e continuo sem resposta quando me pergunto o que é e como é um hotel popular.
quando retomei minha percepção e terminei de digerir toda a informação que recebi do restaurante popular (irônico não? as observações me desceram tão indigestas…) eu estava passando por um lugar igualzinho ao Saara, com as mesmas barraquinhas, as mesmas bungingangas, e as mesmas musicas evangélicas.
Depois entrei no Centro que eu conheço, na avenida rio branco… aí sim finalmente estava num caminho que eu definitivamente conhecia bem.
retomei meu fôlego e meus pensamentos, e até dei a indicação de onde ficava a rua do ouvidor pra uma moça, obviamente muito feliz comigo mesma.
A vi descer, e entrar no McDonnalds. Nossa, como a pessoas adoram o McDonnalds… insatisfação e muita asia num potinho por apenas 9,99: que delícia.
ao fim da engarrafada Rio Branco enfim o vento fresquinho da viagem pelo aterro.
eu estava delirando com os olhos fechados sentindo aquele vento maravilhoso, vindo da velocidade absurda do motorista
mas nem mesmo o aterro estava imune ao traiçoeiro relógio que marcava 18h30: do meio do flamengo até o túnel fomos todos enfileirados num engarrafamento que vinha da entrada da Mena Barreto – é incrível como o transito dos outros atrapalha a vida da gente…
quando desci, minhas pernas meio que tremiam. a gente fica muito tempo no ônibus caminhando com a mente que quando subimos nos pés novamente eles mal dão conta.
e assim voltei pra casa…
renovada pela minha aventura.
muito feliz e serelepe, pronta pra me deliciar com uma manga gigantesca vermelhinha que eu tinha comprado de manhã e não tinha tido tempo para dar-lhe a devida atenção ainda.
nossa, me identifiquei muito… da atenção na conversa do trocador ao restaurante popular, coisa assim que dá muita raiva quando depois a gente passa por ipanema e vê as pessoas, a quantidade de ignorância, sei lá