ah! brutaflor!
eu quero e não quero tudo
quero não querer
e até consigo
mas ninguém vê
quero um ardido
moído descrer
um querer sem ver
sem ser e sem sofrer
quero um simples bocejo
gostoso com um desejo
no brejo, na cidade
que ele fique à vontade
que venha ao próximo alvorecer,
permaneça à cabeça,
não queira escurecer,
não enlouqueça depressa
e que,
ainda que não queira,
não possa ou não seja
querer só a beira
que seja além de ardente
além de querer-quente
um querer forte e infinito
querer como amor de um amigo
como flor como abrigo
como mãe como amor
querer sem querer
um querer sem dor
a gente
Quando tá tudo azul
quem não tá azul é a gente?
e quando lê o livro
é ele quem lê a gente?
quando desiste de algo
é o algo que desiste da gente?
quando compra o dinheiro
é ele quem compra a gente?
e quando a gente se decepciona
a gente se decepciona é com a gente?
quando puxa o ar
é o ar que puxa a gente?
quando a gente sente medo
é o medo quem sente a gente?
quando gosta de alguém
é ele quem gosta da gente?
e quando deveria gostar
é a gente que não gosta da gente?
quando a gente acha que tá certo
tem alguém mais certo que a gente?
quando a gente acha que vive a vida
será ela quem vive a gente?
e afinal quem a gente pensa que é?
e se quem pensa não é a gente?
e se não pensa, nem muito menos gente?
isso faz de nós o quê?
MAL-ACOSTUMADO
folha branca
franca
intimida tudo de dentro
e foge fácil o momento
quis escrever tal vez
poesia crua
dura
e pior que não cura
não quando fica assim
se esconde
todo onde
cadê?
vergonha, porquê
na realidade é a insuficiência
essa demência
é dá muita raiva, sabe, amor
mastigar tudo tanto
por pensamento
e na hora do pranto, do canto
palavras ao vento
desoriento
e a boca retrai
a mente trai
a mão recai
e nada
nada sai
e a tão falsa epifania
falsamente sacia
falsamente abrevia
e enganando esvazia
e então tá tudo bem.
mas depois
que o amor se foi
não estão a dois
a dor reflui
com dentes
se prende
arranca, destroça
se abriga
me almoça
e desanca, me ofende
se tranca
cruelmente
e cultiva, e cresce
e nasce e morre
e sempre sempre me acorre
quando novamente
em minha frente
o amor se põe imponente
vai ser um dia bem longo
Acordo com a luz. Oito horas da manhã. Dor nas costas, tensão do sono. E remoendo e remoendo os sonhos, pesadelos, angustiantes. E,com todas as forças, aquela voz que ecoa – o ontem não é nada. nunca será. o hoje e o agora no cobertor quente podem ser um refúgio se a isso se permitir. pensa na efemeridade. pensa. no tempo. que você já escreveu. tenta. que não vale sofrer por um silêncio, muito menos por um conflito interno que não fede nem cheira. esse sofrimento não é digno. controla sua cabeça. e dá-lhe paulada.
resíduos em prática…. levanto então; que tal aquele trabalho de freud? e na ciência/filosofia/o que seja encontramos uma nova perspectiva. mais um braço que incentiva – sim, olha pra civilização. pensa nos seus instintos, hipotéticos, no seu inconsciente, incerto. é tudo isso essa merda mesmo, não precisa se prender…
então escrevamos. Nove horas. algum avanço? Mas será que corro, que choro, que trabalho, praia, tv ou só estaticamente permaneço?
e o nada? sua culpa, nada! absoluto nada…… grande imenso imperioso nada. antes houvesse alguma coisa…
tempo tempo vou te fazer um pedido
acho que… é, realmente, esse frio entranha. entranha e estranha, até, meu organismo agora tão acomodadamente gélido abriga um coração não-tão-moto-contínuo-assim, tão quietinho poupando calor… Há um mês, ou mais, mais de um no tempo do lado de dentro, saio do banho, sinto frio. troco de roupa, sinto frio. acordo, sinto frio. saio de casa, sinto frio. lavo as mãos, sinto frio. frio frio frio FRIO, me deixa em paz! E me deixou…mas não quero tanta paz assim, paz-passiva não serve a mim. Minha alma não expande mais, os dias dispostos assim todos em fila causam uma certa náusea de quem está no ônibus há muito tempo e ainda não chegou em casa, ah como eu já deveria ter chegado em casa, sabe. e todo mundo andando, oi hoje. oi amanhã. tchau. tchau de novo. a imagem dos acorrentados prisioneiros não deixa espaço para nada além, e pensar nesse ciclo que nada produz e que tudo suga é exaustivo. é preciso descontinuar.
AH!
eu quero calor. não porque meu coração me pede, até porque o pobrezinho não me pede mais nada, mas minha cabeça vai explodir em regressão, séria regressão se essa melancolia climática não partir. não que acabe, nem quem se foda… apenas que parta. e que volte, às vezes e aos poucos… afinal é preciso sentir frio. sim. mas não agora.nem eu nem hoje.não mais.
Que dois-je faire
[meu slam, concorrendo a uma viagem pra frança....]
Les coeurs se taisent en choeur
On apprend que la vie
est une cordée de rêves
Où les réussites sont à portée de main
Alors on tend la main et c’est le fruit d’Eve
Et ces vérités des chansons
Sont en réalité une illusion
Le monde intégré nous trompe
comme s’il était accueillant
Mais il est farceur
Il coupe les files
des vies sans chaleur
Qui tremblent de peur
de se sentir seules
On fait des agapes
Mais avec qui?
La solitude est devenue aujourd’hui
une complice de cette humanité
absente de caresse ;
Et celle qui me dit bonjour
Est toujours la tristesse
Les coeurs se taisent en choeur
Les personnes que vivent
Seulement pour réseuter
Ils sont pas suffisament développés pour aimer
Même avec une vie sans sentiments
Ils se debrouille, en survivant
Je crie, je pleure
Qui n’a pas peur?
On vie dans les malheurs
Mais seul, on meurt
Les coeurs se taisent en choeur
Et maintenant que dois-je faire?
je peux pas vivre harmonieusement
Le manque de liaison avec ces gens passants
est toujours plus doloreux qu’un coeur cassé
Puis je cours… derrière qui? derrière quoi?
Je ne sais pas
Plus je cherche
Moins je vois
oú sont les amants?
où sont les aimés?
quelques yeux ouverts…?
Je n’ai rien trouvé
L’incroyance, l’indifférence
blessent le monde
Et à chaque jour qui passe
personne ne comprend
cet abîme profond
Les hommes se dégénèrent en choeur
Mais les coeurs se taisent encore
tempotempodeverão
ai que leveza… tudo flutua
minha cabeça, de dentro, cabeça pra baixo… de baixo, e alto, pro lado e o outro
eu penso mais aí elas fogem
voltem
as palavras, eu digo
flutuam junto e pensamento fica assim difícil
de escrever
de se escrever
“Summertime, time, time
child, the living’s easy. fish are jumping out and the cotton, lord, cotton’s high lord so high.”
existir
eu existo.
Às vezes isso me pega de surpresa… mas afinal que coisa mais curiosa
Eu existo, mas não só eu… provavelmente todos que meus olhos me enganam também existem. Tudo que eu nunca vi existe… Tudo que eu nunca vou ver vai passar a vida inteira existindo, mesmo não tendo função alguma na minha existência… será então que o mundo não gira ao meu redor?
de dentro
Sol, poeira
A tarde lenta
Arrasta
Consome
Putrifica
Como conseguem os cadáveres
Afinal, a morte deve ser coisa pouca
Seca
Se vive tanto
Pra no final apenas morrer
E ficar
Decompondo
Pra sempre
E se decompõe em vida
Em pensamentos, em silêncios
Sofri, mas calei
E então não serviu pro mundo
Tão externo
Tão individuativo
Essa janela me consome
Essa vista
O meu mundo todo
Todinho
Dentro dessa janela
Vivo de janelas.
Daqui tenho tudo que preciso
E tenho
Mas nada é meu
Não controlo
O mundo se faz aos meus olhos
E vive
Sozinho
E sem mim
Um dia ousarei, quem sabe
Sair
Desse quarto
E então sair do meu mundo
Que não é meu
E entrar no mundo de verdade
Em caixão
Grande
Com a minha janela junto
Dormir na terra
E virar raíz
Do mundo
decompondo
o velho
o trapo do velho
que cai do baralho
é o copo de bar
molhado de orvalho
da noite estrelada
e vazia na estrada
nasceu um velho
mambundo, severo
severo chamava
como outro cigano
que enfim desmaiava
debaixo dos panos
caia na rua
dormia no fio
depois acordava
com o prato vazio
sentou na calçada
sentiu um aperto
era a vida levando
seu imenso soneto
e então bem cansado
caiu para o lado
morreu devagar
e esqueceu de pagar